Análises

Alan Wake: a história que escreve o autor

Um escritor em bloqueio criativo chega a uma cidadezinha para descansar e descobre um pesadelo: aquilo que ele escreve começa a acontecer de verdade, inclusive os monstros. Alan Wake parece um thriller de terror, mas é, na real, uma das metáforas mais precisas já feitas sobre o que acontece quando um criador se depara com o próprio inconsciente.

A luz e a escuridão

Toda a mecânica do jogo gira em torno de uma coisa: a luz. Os inimigos, os Tomados, só podem ser feridos depois de expostos à lanterna; a escuridão os protege. Difícil imaginar imagem melhor para a relação entre consciência e inconsciente. A escuridão é tudo aquilo que age sobre nós sem que a gente veja; a luz é o pouco de consciência que a razão consegue jogar sobre esse material. E, como no jogo, iluminar não é confortável, é um esforço constante, a lanterna sempre acaba a bateria, e a escuridão sempre volta. Trazer o recalcado à luz cansa. Alan Wake faz você sentir isso no dedo.

A criação que ganha vida própria

O horror central de Alan é que a história dele saiu do controle. Ele escreveu, e o texto ganhou autonomia, virou realidade, voltou-se contra ele. Qualquer pessoa que já criou algo, um texto, uma música, um jogo, conhece essa sensação estranha: a de que a obra tem vontade própria, de que ela vem de um lugar que você não domina totalmente. Criar é, no melhor dos casos, o que a psicanálise chama de sublimação: desviar o material bruto do inconsciente para uma obra, uma domesticação bem-sucedida da pulsão. Mas Alan Wake é sobre o oposto: o que acontece quando a sublimação falha, quando o material não se deixa domar e retorna, monstruoso, maior e mais escuro do que o autor gostaria de admitir. Não é a criação que salva, é o recalcado que volta pela porta que a criação abriu.

Mr. Scratch, o duplo

E então aparece Mr. Scratch: idêntico a Alan, mas cruel, debochado, violento, tudo o que Alan reprime. Freud escreveu sobre o duplo como uma das figuras mais inquietantes que existem: aquele outro-eu que carrega o que negamos em nós mesmos. Mr. Scratch é o duplo de Alan no sentido mais exato, a sombra do criador, o lado que ele não quer ser e que a escuridão liberou. Enfrentar Scratch é enfrentar a parte de si que a gente prefere manter no escuro. E o jogo não deixa fugir dessa: para vencer, Alan tem que reconhecer que o monstro tem o rosto dele.

Escrever para não se perder

No fundo, Alan Wake é sobre por que a gente cria. Escrever, para Alan, é a única arma contra a escuridão, é o gesto de dar forma ao caos, de organizar o informe em narrativa, de transformar angústia em história. É o que a arte faz por todos nós: oferece uma maneira de segurar o que, solto, seria insuportável. Mas o jogo também avisa do risco: quando a forma falha, quando a história perde o controle, o criador pode ser tragado pelo próprio material. Criar é iluminar o escuro, e ninguém ilumina o escuro sem chegar perigosamente perto dele.

Por que fica na gente

Alan Wake ressoa porque todo mundo tem uma escuridão interior e uma relação complicada com ela. Você não precisa ser escritor para conhecer o medo de que aquilo que vive dentro de você seja mais forte do que você. O jogo transforma esse medo numa aventura de lanterna e páginas manuscritas, e, ao fazer isso, diz uma verdade bonita: a saída não é apagar a escuridão (impossível), é aprender a apontar uma luz para ela e seguir escrevendo.

Capa: Alan Wake 2

Se interessou pelo Alan Wake 2? Adquira aqui e ajude o canal a crescer. 🎮

Ver Alan Wake 2 Link de afiliado. Como Associado da Amazon, este site ganha com compras qualificadas, sem custo a mais para você.
🎥 Assista à análise completa
Cole aqui o embed do vídeo do YouTube.

Referências

Freud, S. O Inquietante (Das Unheimliche, 1919), o duplo. · O conceito de sublimação (e sua falha) e o retorno do recalcado na teoria freudiana.

← Voltar para a home

Comentários

O que você achou desta análise? Concorda, discorda, tem outra leitura do jogo? Deixe seu comentário aqui embaixo, leio todos e adoro continuar a conversa sobre o texto. 👇