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O avatar e o espelho: por que a gente se apega ao personagem

Você já sentiu um aperto quando o seu personagem morre? Ou orgulho quando ele acerta o golpe perfeito? Estranho, não é, ele é feito de pixels, você sabe disso. E mesmo assim, por algumas horas, ele é você. Essa fusão entre o jogador e o boneco na tela não é bobagem nem imaturidade. Ela toca num dos momentos mais fundadores da nossa vida psíquica, que Lacan descreveu num texto de 1949: o estádio do espelho.

A primeira vez que a gente se vê inteiro

Lacan partiu de uma cena simples: o bebê, ainda sem controle do próprio corpo, se vê no espelho e reconhece ali uma imagem inteira, coordenada, completa. Só que existe um descompasso: por dentro, o bebê ainda se sente fragmentado, desajeitado, dependente. A imagem no espelho é mais organizada do que ele realmente é. E ele se apaixona por ela, adota aquela forma inteira como sendo "eu". É assim, segundo Lacan, que o eu começa a se formar: a partir de uma imagem externa, idealizada, que promete uma completude que a gente ainda não tem.

O avatar é um espelho que obedece

Agora pensa no seu personagem. Ele é ágil onde você é desajeitado, corajoso onde você hesita, competente de um jeito que a vida raramente permite. Você o vê inteiro na tela e, melhor ainda, ele responde ao seu comando. O avatar é uma versão do estádio do espelho levada ao interativo: uma imagem ideal de si na qual a gente se reconhece, só que dessa vez a imagem se mexe quando você quer. Não é à toa que dói quando ela cai. Por um instante, é a sua própria imagem ideal que desmorona.

Por que a gente escolhe como escolhe

Isso ajuda a entender aquela hora, às vezes longa, de criar o personagem. As escolhas de rosto, corpo, classe e nome não são só estéticas: você está compondo uma imagem para habitar, um "eu" a ser experimentado. Tem quem faça um avatar parecido consigo, um espelho literal. E tem quem faça o oposto do que é, o tímido que vira o guerreiro brutal, quem se sente sem voz que vira o líder carismático. Nos dois casos, o jogo oferece o que o espelho de Lacan oferecia: uma forma inteira onde depositar aquilo que a gente gostaria de ser.

O prazer e a armadilha

Há algo profundamente prazeroso e até saudável nisso. Ensaiar identidades, experimentar ser corajoso, competente, outro, o jogo é um espaço seguro pra isso, quase um laboratório do eu. O cuidado é quando a imagem ideal na tela fica boa demais em comparação com a vida: quando o avatar competente serve pra não encarar a própria sensação de incompletude, e a fusão vira fuga. Lacan já avisava que essa identificação com a imagem ideal tem um lado alienante, a gente se prende a uma forma que, no fundo, é mais promessa do que verdade.

Um espelho para brincar de ser

No fim, o apego ao avatar não é fraqueza, é uma das coisas mais humanas que existem, repetindo em forma de jogo um gesto que fundou o nosso próprio eu. Da próxima vez que você sentir aquele orgulho meio bobo pelo seu personagem, ou aquele aperto quando ele morre, sorria: é o estádio do espelho funcionando, o mesmo mecanismo que, muito antes de qualquer joystick, te ensinou a dizer "esse aqui sou eu".

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Referências

Lacan, J., O estádio do espelho como formador da função do eu (1949; publicado nos Escritos). · O conceito de eu-ideal e imagem especular na teoria lacaniana.

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