Cyberpunk 2077: quando o outro mora dentro da sua cabeça
Cyberpunk 2077 (CD Projekt Red, 2020) tem uma premissa que é boa demais para ser só ficção científica. V carrega no crânio um chip com a personalidade gravada de Johnny Silverhand, um sujeito morto há cinquenta anos. O chip não é um passageiro silencioso: ele fala, discorda, aparece encostado na parede fazendo comentário, e vai aos poucos sobrescrevendo o cérebro de V. O jogo é a corrida contra esse processo.
O duplo não é um clone, é um concorrente
Johnny não é uma cópia de V. É a diferença que torna a coisa interessante. Ele tem outra história, outras convicções políticas, outro jeito de resolver problema, e um desprezo bastante explícito pelo jeito como V leva a vida. Ou seja, ele não representa uma duplicação, representa uma alteridade instalada no lugar mais íntimo possível. E o jogo é honesto ao mostrar que a convivência não é neutra: V começa a gostar de coisas que não gostava, a reagir de jeitos que não eram seus.
Rank, Freud e um tema antigo
O duplo é um tema que a psicanálise pegou emprestado da literatura e levou a sério cedo. Em 1914 Otto Rank publicou um estudo dedicado ao assunto, ligando a figura do duplo ao narcisismo e ao medo da morte. Freud recorreu a esse trabalho em 1919, em O inquietante, citando Rank longamente e acrescentando uma observação que interessa aqui: o duplo remete a um tempo em que o eu ainda não estava nitidamente separado do mundo externo e das outras pessoas.
É essa a razão do mal-estar particular que a figura provoca. O duplo não assusta por ser monstruoso. Assusta porque lembra que a fronteira entre eu e outro não é natural nem garantida: ela foi construída, e o que foi construído pode ceder.
Night City faz do corpo um item de inventário
O cenário reforça o argumento em vez de servir de pano de fundo. Em Night City o corpo é modular: braço, olho, sistema nervoso, tudo trocável por peça melhor. A ciberpsicose, no universo do jogo, é o que acontece quando alguém se implanta além do que consegue integrar. É uma ideia de ficção, mas formula uma pergunta legítima: quanto de você pode ser substituído antes que a conta não feche mais?
E o jogo responde deslocando a pergunta do corpo para a memória. V perde braços e sobrevive. O que ameaça de fato é alguém pensando de dentro.
Os finais são respostas sobre quem sobra
É por isso que os finais de Cyberpunk funcionam melhor do que a maioria das escolhas morais de RPG. Nenhum deles é vitória limpa, e todos respondem à mesma pergunta: quem fica. Há o caminho em que V entrega o corpo e Johnny segue vivendo nele. Há aquele em que V se mantém e Johnny se apaga. Há a saída pelos Nomades, que preserva o vínculo às custas de tudo o mais. E há o final solitário, o mais duro, em que V vai sozinho e provavelmente morre.
Repare que não existe a opção de fusão feliz, os dois convivendo em paz num mesmo corpo. O jogo se recusa a oferecer isso, e a recusa é coerente com o que Rank e Freud descreveram. O duplo não é um companheiro, é uma disputa pelo mesmo lugar.
A pergunta que fica fora da ficção
O chip é ficção científica, mas a situação não é tão exótica assim. Todo mundo carrega vozes que não são suas e que opinam de dentro: o jeito de um pai falar com você, a exigência de um chefe antigo, a frase de alguém que já foi embora e continua comentando suas escolhas. A psicanálise chama isso de identificação, e não é patologia, é como o psiquismo se monta.
O que Cyberpunk 2077 faz é levar o processo ao limite visível, com barra de progresso e prazo. E a pergunta que ele deixa é razoável para quem nunca chegou perto de um implante: entre as vozes que decidem por você, quantas você ainda reconhece como sendo suas, e há quanto tempo ninguém faz essa conferência?
Leia também
Alan Wake: a história que escreve o autor Streamers e o eu-ideal: quem é você quando a câmera ligaReferências
Rank, O. O duplo (Der Doppelgänger, 1914): primeiro estudo psicanalítico sistemático do tema do duplo, associado por ele ao narcisismo e ao medo da morte. · Freud, S. O inquietante (Das Unheimliche, 1919): cita longamente Rank e situa o duplo como retorno a um tempo em que o eu ainda não estava nitidamente separado do mundo externo e das outras pessoas.
Comentários