Nostalgia dos jogos retrô: por que o passado conforta tanto
Tem um som que faz gente adulta parar tudo: a música de abertura de um jogo da infância. Aquele blip de 8 bits, aquela tela de start, e de repente você tem de novo dez anos, num fim de tarde que não existe mais. Por que jogos tecnicamente "piores", quadradões, limitados, conseguem mexer com a gente de um jeito que lançamentos milionários muitas vezes não conseguem? A resposta não está nos gráficos. Está no que aqueles jogos guardam.
Nostalgia: a dor doce do retorno
A palavra "nostalgia" nasceu no século XVII para descrever uma espécie de doença: o sofrimento de soldados longe de casa, tomados pela saudança. Ela une duas raízes gregas: nostos (retorno) e algos (dor). É literalmente a dor de querer voltar. O que a gente sente diante de um jogo antigo é isso: não exatamente saudade do jogo, mas saudade de quem a gente era enquanto jogava. O cartucho é só a porta; o que está do outro lado é um tempo, um quarto, pessoas, uma versão de você.
O videogame como objeto transicional
Aqui entra Winnicott, com uma das ideias mais bonitas da psicanálise. Ele observou que a criança pequena elege um objeto especial, um paninho, um ursinho, que não é ela nem é a mãe, mas fica no meio do caminho. Winnicott chamou isso de objeto transicional (num texto de 1953): uma coisa que segura o aconchego do vínculo quando a mãe não está, um pedaço de segurança portátil. O jogo da infância funciona, para muita gente, como um objeto transicional que sobreviveu ao tempo. Ele carrega uma sensação de mundo seguro, previsível, onde as regras eram claras e a gente sabia o que fazer. Voltar a ele é reencontrar esse colo.
Por que o passado parece mais organizado
Há uma razão para o passado dos jogos parecer sempre mais aconchegante que o presente. A memória não é uma câmera: ela edita, suaviza, tira o tédio e a frustração e guarda o brilho. O jogo retrô que você ama hoje é, em parte, uma construção, uma versão limpa daquela experiência, sem as horas de raiva com a fase impossível. E o mundo de então parecia mais simples porque você era mais simples: sem contas, sem prazos, com o tempo escorrendo devagar. A nostalgia mistura o jogo real com essa moldura dourada, e é a moldura que emociona.
O conforto que cura e o conforto que prende
Recorrer ao retrô nos momentos difíceis não tem nada de errado, é uma forma legítima de se acalmar, um objeto transicional a que a gente tem todo direito. O ponto de atenção é quando o passado deixa de ser refúgio e vira esconderijo: quando "nada é tão bom quanto antigamente" fecha a porta para o presente. A nostalgia saudável é aquela que reabastece, você visita o passado, se aquece nele e volta com mais energia para o agora. A que adoece é a que só quer ficar lá, porque o presente assusta demais.
Guardar o passado para poder seguir
No fundo, amar os jogos da infância é uma forma de manter contato com a própria história, de não perder de vista quem a gente foi. Aquele blip de 8 bits é uma âncora afetiva, uma prova de continuidade entre a criança que jogava e o adulto que lembra. Usada bem, essa ponte não prende: ela dá base. A gente volta ao velho cartucho não para fugir do presente, mas para lembrar que sempre soubemos encontrar alegria nas coisas simples, e leva um pouco disso de volta para hoje.
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Winnicott, D. W., Objetos transicionais e fenômenos transicionais (1953). · Origem do termo "nostalgia": Johannes Hofer (dissertação médica, 1688).
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