Cultura Gamer

Por que os jogos que a gente mais espera são os que mais decepcionam

Repare num padrão cruel: os jogos que decepcionam mais raramente são os medianos que ninguém esperava. São os grandes, os aguardados por anos, os que "iam mudar tudo". Quanto maior o hype, maior o tombo. Isso não é azar nem só marketing exagerado, é psicologia, e tem a ver com uma coisa que a gente faz o tempo todo sem perceber: idealizar.

A idealização: o jogo perfeito que só existe na sua cabeça

Enquanto o jogo não sai, ele é impecável. Sem bugs, sem partes chatas, sem decepção, porque ele ainda não existe de verdade; existe só como fantasia. Nesse espaço de espera, a nossa mente faz o que a psicanálise chama de idealização: preenche os buracos do desconhecido com tudo de melhor que a gente projeta. Cada trailer vira combustível para uma versão do jogo que é, na verdade, feita de você, dos seus desejos, das suas memórias dos jogos que amou. Você não está esperando o jogo. Está esperando a imagem perfeita que construiu dele.

A queda: o real nunca corresponde à fantasia

Aí o jogo sai. E, por melhor que seja, ele é uma coisa: real, limitada, com escolhas concretas que fecham as mil possibilidades que a fantasia mantinha abertas. O objeto real sempre decepciona o objeto idealizado, porque o idealizado não tinha limite, e a realidade é feita de limites. Quanto mais alto você ergueu a idealização, mais dura é a aterrissagem. A decepção não mede a qualidade do jogo; mede a distância entre o que você imaginou e o que veio. Às vezes um ótimo jogo "frustra" só por não ser o impossível que a gente sonhou.

O luto do jogo que a gente imaginou

Existe até um pequeno luto aí, e vale reconhecê-lo. Quando o jogo real chega, a versão idealizada, aquela que só morava em você, precisa morrer. Parte da frustração é essa despedida: não do jogo que veio, mas do jogo que você inventou e que nunca poderia existir. É o mesmo mecanismo de qualquer expectativa grande na vida: a viagem, o relacionamento, o emprego dos sonhos. A fantasia é sempre mais lisa que o real, e crescer é, em boa parte, aprender a fazer as pazes com essa diferença.

Como aproveitar o jogo que realmente veio

A saída não é "não criar expectativa", isso é impossível e sem graça. É perceber, na hora da decepção, o que está acontecendo: "estou frustrado com o jogo, ou com o fim da fantasia que eu tinha dele?". Quando você separa os dois, o jogo real ganha uma segunda chance, a de ser julgado por ser o que é, e não por não ter sido o impossível. Muitos jogos "decepcionantes" viram favoritos anos depois, quando o hype passa e a gente finalmente encontra o jogo que sempre esteve ali, livre da sombra do que ele deveria ter sido.

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Referências

Freud, S., a idealização e sua relação com o eu-ideal (Sobre o Narcisismo, 1914). · O contraste entre o objeto idealizado e o objeto real na teoria psicanalítica.

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