Análises

Celeste: a parte de você que você não quer olhar

Celeste (Matt Makes Games, 2018) parece, no primeiro contato, um jogo de plataforma muito difícil sobre subir uma montanha. Duas horas depois você percebe que a montanha é a parte fácil. O assunto real aparece quando Madeline encontra uma versão de si mesma, escura, debochada, que a segue pelo cenário dizendo que ela não vai conseguir. Ela chama essa figura de Parte de Mim. Os jogadores chamam de Badeline. E a primeira reação de Madeline é a mais humana possível: tentar se livrar dela.

O jogo é sobre uma tentativa de expulsão

Repare no enredo real, que não é o alpinismo. Madeline sobe a montanha para provar alguma coisa a si mesma. No caminho, a montanha materializa aquilo que ela carrega, e o que aparece não é um monstro externo: é ela. Badeline tem o rosto dela, a voz dela, a memória dela. E diz, com precisão cruel, exatamente o que Madeline pensa quando ninguém está ouvindo. A partir daí o jogo vira uma perseguição, com Madeline tentando fugir de uma parte de si que insiste em vir junto.

Klein e a operação de cortar ao meio

Melanie Klein descreveu essa operação num texto de 1946, Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. Ela propõe que o bebê, muito cedo, lida com a angústia dividindo o mundo em dois: existe o objeto bom, que satisfaz, e o objeto mau, que persegue. E o ponto que interessa aqui é que essa cisão não atinge só os objetos externos, atinge também o próprio eu. A criança separa em si mesma uma parte aceitável de uma parte insuportável, e trata a segunda como se fosse estrangeira.

Klein chamou esse arranjo de posição esquizoparanoide, e fez questão de dizer que não é um estágio que se atravessa e se abandona. É uma posição, algo para onde a gente volta sempre que a angústia aperta. Diante do que não se suporta em si, a saída mais rápida continua sendo a mesma da infância: isso aí não sou eu.

Badeline não é a vilã, é o pedaço exilado

É por isso que Badeline funciona tão bem como figura. Ela não é um demônio, uma possessão ou uma maldição. Ela é o que sobrou do lado de fora quando Madeline decidiu qual parte de si podia ficar. E ela se comporta exatamente como o material recalcado se comporta: volta, insiste, aparece na hora errada e fica mais forte quanto mais é empurrada. A cena em que Madeline tenta deixá-la para trás e o jogo simplesmente não permite avançar é uma boa descrição do que acontece quando alguém tenta seguir a vida deixando um pedaço trancado no porão.

A virada não é vencer, é integrar

O momento decisivo de Celeste é conhecido, e vale reparar no que exatamente acontece nele. Madeline não derrota Badeline. Não a mata, não a convence, não a expulsa. Ela para de fugir, escuta, reconhece que aquilo também é ela, e propõe subirem juntas. E o efeito mecânico dentro do jogo é notável: a partir dali Madeline ganha um segundo impulso, ela literalmente pula mais alto. A parte que era peso vira força.

Klein descreveu esse movimento em 1935, num texto sobre os estados maníaco-depressivos, e chamou de posição depressiva. É o momento em que a pessoa para de operar com dois objetos separados, um todo bom e um todo mau, e consegue sustentar que se trata do mesmo objeto, com as duas coisas dentro. Isso custa caro, porque junto vem a culpa pelo que se atacou. Mas é o que permite reparar, e Klein considerava essa capacidade parte essencial da saúde mental.

Por que a mecânica ensina melhor que o texto

Muita gente disse que Celeste é um jogo sobre ansiedade, e é. Mas ele acerta num ponto em que quase toda representação erra. Não promete cura, não elimina o sintoma, não faz a montanha ficar mais fácil. O que muda é a relação: as mesmas telas que eram tortura continuam difíceis, só que agora Madeline sobe com a parte que antes gastava energia negando. Quem já passou por um processo de análise reconhece o formato. Não é a angústia que some, é a quantidade de esforço gasto em fingir que ela não é sua.

Talvez esteja aí a razão de o jogo ter grudado em tanta gente que nem liga para plataforma. Celeste diz, sem discurso motivacional e sem um final mágico, uma coisa incômoda e verdadeira: a parte de você que você mais quer deixar no sopé da montanha é justamente a que precisa ir junto.

Referências

Klein, M. Notas sobre alguns mecanismos esquizoides (1946): a posição esquizoparanoide, a cisão (splitting) dos objetos e do próprio eu em bom e mau. · Klein, M. Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos (1935), International Journal of Psychoanalysis, v. 16: a posição depressiva, a integração do objeto e a reparação.

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