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Por que a gente precisa platinar? A psicanálise do 100%

Por que a gente precisa platinar? A psicanálise do 100%

Você terminou o jogo. A história acabou, os créditos subiram, foi ótimo. E aí bate aquilo: falta o troféu de platina. Faltam três colecionáveis, um desafio chato, uma dificuldade a mais. E, mesmo sem vontade nenhuma, você volta, horas caçando itens num mapa que já não te diverte, só para ver aquele 100%. Por que fechar não basta? Por que a gente precisa do completo? A resposta diz menos sobre o jogo e mais sobre uma voz que a gente carrega por dentro.

A voz que exige: o superego

Freud descreveu uma instância psíquica que funciona como um juiz interno: o superego. É a parte que cobra, avalia e nunca está totalmente satisfeita. Só que o superego tem uma característica curiosa que Freud notou: quanto mais a gente cede a ele, mais ele exige. Ele não trabalha com "bom o suficiente". Ele trabalha com "podia ser mais". A platina é um alvo perfeito para esse juiz: um número redondo, objetivo, público, que transforma "aproveitei o jogo" em "cumpri 100% da tarefa". E não cumprir dá aquele desconforto específico, não é tristeza, é uma cobrança.

O ideal do ego: a imagem de quem eu deveria ser

Tem também o ideal do ego: a imagem de quem a gente gostaria de ser, o modelo de excelência que perseguimos. Para muita gente, essa imagem inclui ser alguém competente, disciplinado, que "termina o que começa", que não deixa nada pela metade. A platina vira uma prova concreta dessa imagem, um selo que diz "eu sou completo, eu dou conta, eu não desisto". Caçar o 100% é, no fundo, caçar uma confirmação de valor. Por isso a ausência de um troféu incomoda tão além do jogo: ela cutuca a pergunta "será que eu sou suficiente?".

O prazer que passa do prazer

Aqui aparece um detalhe que a psicanálise lacaniana ilumina bem. Repare que o grind da platina muitas vezes já não é divertido. É repetitivo, cansativo, às vezes irritante, e a gente continua. Isso não é o prazer comum (que faz a gente parar quando sacia); é o que Lacan chamou de gozo: uma satisfação que ultrapassa o prazer e beira o desprazer, um empuxo que insiste mesmo doendo. O platinador conhece bem essa fronteira: aquele ponto em que caçar o último troféu deixou de ser gostoso e virou compulsão. Fechar a lista alivia, mas é o alívio de calar a cobrança, não a alegria de brincar.

Quando é saudável e quando é armadilha

Nada disso condena quem platina, pelo contrário. Buscar o domínio completo de um jogo pode ser fonte legítima de orgulho, foco e prazer do capricho. O caso muda de figura quando o 100% deixa de ser escolha e vira obrigação: quando você platina jogos que nem gostou só para não deixar "incompleto", quando a lista de troféus dita o seu tempo livre, quando não terminar dá angústia em vez de "tudo bem". Aí a platina parou de servir a você e você passou a servir a ela, o superego assumiu o controle remoto.

Deixar incompleto também é um exercício

Talvez o ato mais interessante, para quem se reconhece aqui, seja justamente o oposto do que o jogo pede: largar um jogo pela metade, de propósito, quando ele já entregou o que tinha de bom. Não por preguiça, mas como um pequeno treino de dizer "chega, foi suficiente" para aquela voz interna que nunca acha que é. Porque a lição mais valiosa que um jogo pode dar talvez não esteja em nenhum troféu, e sim na descoberta de que o seu valor não depende de completar a lista.

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Referências

Freud, S., o superego e o ideal do ego (O Ego e o Id, 1923). · Lacan, J., o conceito de gozo (jouissance).

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