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Death Stranding: um mundo sem o nome-do-pai

Death Stranding: um mundo sem o nome-do-pai

Death Stranding vai muito além dos gráficos e da jogabilidade diferente. Na minha leitura, é quase uma sessão de terapia digital. O Kojima parece ter mergulhado tão fundo na psique que o que ele entrega não é um jogo de entregas: é um tratado sobre conexão, trauma e paternidade, sobre como, mesmo num mundo destruído, ainda dá para reconstruir laços.

Aviso: este texto comenta temas e estruturas da história. Alguns spoilers leves.

Um mundo em colapso, ou uma mente em colapso

As cidades estão isoladas, todo mundo vive em bunkers, a chuva envelhece o que toca e criaturas espectrais rondam o cenário. Mas esse mundo não é só pós-apocalipse: é o retrato de uma mente em colapso. Na psicanálise, isso lembra a estrutura psicótica, quando os registros que sustentam a realidade se desamarram por falta do que Lacan chama de nome-do-pai.

O que é o nome-do-pai

O nome-do-pai não é o seu pai biológico. É um conceito simbólico. Imagine que a mente funciona como uma barraca de camping: para ficar de pé, precisa de três cabos amarrados, o real (o mundo bruto, as sensações), o simbólico (as palavras, as regras, o que dá nome às coisas) e o imaginário (as imagens que fazemos de nós e dos outros). O nome-do-pai é o nó central que segura os três juntos: aquilo que permite dar sentido, organizar o desejo e viver em sociedade. Ele aparece quando a criança entende que não é tudo para a mãe, que existe um limite, uma lei que vem de fora. Quando esse nó falta, na psicose, os cabos se soltam: a realidade invade sem mediação, a fantasia se mistura ao real, e o sujeito tenta inventar por conta própria uma solução, muitas vezes um delírio. É exatamente o mundo de Death Stranding: monstros surgindo do nada, passado e presente se misturando, tudo atravessado pelo real sem filtro.

Sam, o que costura os pedaços

Aí entra Sam Porter Bridges. A missão de levar pacotes é só a casca. Na real, Sam é o único tentando recosturar esse mundo: cada cidade que ele conecta à rede é um passo na reintegração do humano, um refazer dos laços simbólicos. E há um detalhe lindo: você encontra estruturas deixadas por outros jogadores, uma escada, uma ponte, um abrigo. Você nunca vê essas pessoas, mas sente que elas passaram por ali, que se importaram. Winnicott chamava isso de espaço transicional: o lugar onde a gente cria e compartilha sem precisar ver o outro (O Brincar e a Realidade, 1971). Death Stranding é um parquinho pós-apocalíptico onde cada gesto de ajuda é um ato de resistência.

Sam e o BB: virar pai para se reconstruir

A parte que mais me pega é a relação entre Sam e o BB, o bebê que ele carrega no peito. No começo, o BB parece uma ferramenta. Com o tempo, Sam fala com ele, cuida, acalma, e aquilo vira amor. É o conceito de holding, também de Winnicott: não é só segurar o bebê fisicamente, é sustentá-lo emocionalmente, é dizer "estou aqui, você pode existir". Sam, um homem cheio de traumas, passa a exercer essa função e se torna aquilo que nunca teve. Ao fazer isso, ele se reconstrói. E há Clifford, o pai trágico, a representação do que Freud chamava de retorno do recalcado: aquilo que empurramos para o inconsciente volta distorcido, doloroso, às vezes monstruoso. Sam precisa enfrentar a dor da ausência paterna para, enfim, se tornar pai.

Vencer ajudando

A maioria dos jogos coloca você contra alguém: vença, suba no ranking. Death Stranding faz o oposto, aqui você vence ajudando. Deixa uma ponte para um desconhecido, dá um like por um abrigo achado na tempestade, coopera sem saber quem está do outro lado. Para mim isso é profundamente revolucionário: é como se o jogo dissesse que você não está sozinho, que pode ser um ponto de ligação. Death Stranding é um jogo, claro, mas é também um mapa da alma. É sobre carregar peso, tropeçar, cair e seguir. É sobre virar ponte onde só havia buraco.

Capa: Death Stranding

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Referências

Lacan, J., os conceitos de nome-do-pai e dos registros real, simbólico e imaginário. · Winnicott, D. W. O Brincar e a Realidade (1971), espaço transicional e holding. · Freud, S., o retorno do recalcado.

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