Conceitos

Por que a gente continua jogando o que já cansou de divertir

Você conhece a cena: são duas da manhã, você está fazendo a mesma missão diária pela centésima vez, farmando um item que não vai usar, e, seja sincero, não está exatamente se divertindo. E, ainda assim, não solta o controle. Se o jogo parou de dar prazer, por que você continua? A psicanálise tem uma resposta desconfortável e precisa, e ela tem um nome: gozo.

Prazer não é a mesma coisa que gozo

A gente costuma achar que busca sempre o prazer. Só que Freud, em Além do Princípio do Prazer (1920), percebeu algo estranho: as pessoas repetem, de novo e de novo, coisas que não dão prazer nenhum, às vezes até sofrimento. Lacan deu nome a essa satisfação paradoxal: o gozo (em francês, jouissance). O gozo é uma satisfação que vai além do prazer, e que, por isso mesmo, beira o desprazer. É aquilo que insiste, que se repete compulsivamente, mesmo quando já não é bom. Prazer é o que satisfaz e te deixa em paz; gozo é o que nunca satisfaz de vez e te mantém preso.

O grind é uma máquina de gozo

Agora olhe para o design de meio game moderno. O grind infinito, as recompensas diárias, a caixa de loot, o gacha, a barra que enche devagar. Nada disso foi feito para te dar prazer e te liberar, foi feito para te manter no ciclo. É a repetição pela repetição, o "só mais uma partida" que vira madrugada. A indústria não vende diversão; vende gozo, porque o gozo é o que não acaba, e o que não acaba é o que te traz de volta amanhã. Os jogos que mais nos prendem não são os mais divertidos, são os que melhor exploram essa satisfação que não satisfaz.

Por que a gente repete o que faz mal

Isso não vale só para games. É a mesma engrenagem da rolagem infinita no celular, da mão que volta ao mesmo pensamento ruim, do hábito que a gente sabe que faz mal e não larga. O gozo mora no sintoma: há uma satisfação escondida justamente naquilo de que a gente se queixa. "Não aguento mais esse jogo" e continuar jogando não é contradição, é a definição de gozo. Uma parte de você reclama; outra, mais silenciosa, está sendo satisfeita por baixo, no próprio ato de repetir.

Nomear o gozo já muda o jogo

E aqui está a parte útil, sem sermão. Você não precisa "ter força de vontade" para largar o grind. Basta perceber a diferença: isto ainda me dá prazer, ou já virou gozo, repetição no automático? No instante em que você consegue nomear "ah, isso aqui não é mais diversão, é a máquina me segurando", alguma coisa afrouxa. O gozo perde parte da força quando deixa de ser invisível. Não é sobre parar de jogar, é sobre voltar a escolher o que, de fato, ainda te dá prazer.

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Referências

Freud, S. Além do Princípio do Prazer (1920), a compulsão à repetição. · Lacan, J., o conceito de gozo (jouissance), a satisfação além do prazer.

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