Resident Evil e o abjeto: por que o zumbi apavora
Pensa bem: o zumbi de Resident Evil é lento, burro e frágil. Racionalmente, não deveria assustar tanto. E, no entanto, aquele primeiro zumbi virando a cabeça no corredor da mansão é um dos sustos mais icônicos dos games. Por quê? Porque o terror dele não vem da ameaça física. Vem de ele ser algo que a nossa mente não consegue classificar: um corpo que deveria estar morto e insiste em se mexer.
O abjeto: nem vivo, nem morto
A psicanálise tem um nome para isso. Julia Kristeva chamou de abjeto aquilo que nos horroriza não por ser perigoso, mas por embaralhar as fronteiras, o cadáver, os fluidos, a carne apodrecida, tudo que confunde a linha entre o "eu" e o "não-eu", entre vida e morte. O abjeto não é um objeto que a gente teme; é o colapso das categorias que nos organizam. O zumbi é o abjeto perfeito: ele é a morte que anda, o humano que virou coisa, o familiar (um rosto, um corpo) tornado irreconhecível. Nosso pavor diante dele é o pavor da fronteira que se desfaz.
A casa que vira armadilha
Não é acaso que tudo começa numa mansão, um lar. Freud descreveu o unheimlich, o estranho, como o mal-estar de encontrar algo perturbador justamente no que deveria ser familiar e seguro (o mesmo conceito que destrinchei na análise de Silent Hill 2). Resident Evil pega o espaço mais acolhedor que existe, a casa, com seus quartos, corredores, retratos, e o transforma numa máquina de morte. O aconchego vira ameaça. É por isso que o survival horror clássico prende: ele contamina o familiar. Você nunca está seguro, nem no que parecia abrigo.
O medo de deixar de ser você
E há um terror ainda mais fundo em Resident Evil: a infecção. O vírus não te mata só, ele te transforma. Ser mordido não é morrer; é pior, é perder a si mesmo, virar aquilo que você mais teme, sem consciência, sem vontade, sem "eu". Esse é um medo profundamente psíquico: a dissolução da subjetividade, a angústia de que a fronteira do próprio self seja invadida e apagada. O zumbi não ameaça só a sua vida; ameaça a sua identidade. Ele diz: você pode virar isto.
A pulsão de morte com cara de sobrevivência
Todo o gênero survival horror é uma dança com a morte. A escassez de bala e cura, a tensão constante, a sensação de que o fim está sempre a uma esquina, tudo isso mantém você o tempo inteiro no limite entre viver e morrer. Freud falaria da pulsão de morte rondando por baixo do impulso de sobreviver. E, paradoxalmente, é isso que a gente busca no jogo: flertar com o terror num lugar seguro, olhar para a morte de frente sabendo que dá para pausar. O medo controlado é um prazer estranho, a chance de dominar, no controle, uma angústia que na vida real é indominável.
Por que a gente volta
Resident Evil dura décadas porque não vende monstro; vende o confronto com o que mais nos perturba, a morte, a decomposição, a perda de si, dentro de uma moldura que a gente pode fechar quando quiser. Cada vez que você sobrevive à mansão, você venceu simbolicamente o abjeto: encarou o corpo que não deveria andar e saiu inteiro. É catarse com controle na mão. E é por isso que, mesmo tremendo, a gente aperta "continuar".
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Kristeva, J. Poderes do Horror (1980), o conceito de abjeto. · Freud, S. O Inquietante (Das Unheimliche, 1919) e a pulsão de morte.
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