Samurai e ninja: o superego e a sombra que vivem em você
Por que a gente nunca se cansa de samurais e ninjas? No cinema, nos games, nas nossas fantasias, essas figuras atravessam geração após geração. Mas o fascínio é só sobre espadas e lutas épicas — ou elas despertam algo mais fundo, escondido na psique?
Jogos punitivos e o superego
Quem jogava nos anos 80 e 90 lembra de títulos como Shinobi e Ninja Gaiden: duros, punitivos, de dificuldade quase cruel. Isso não é coincidência. Esses jogos encenavam o superego em sua forma mais rígida. A cada morte, a mensagem era clara: você errou e vai pagar por isso — mas tente de novo, e se for disciplinado, vai triunfar. Era um treino psíquico: suportar a frustração, repetir o erro, insistir até vencer. Aqui aparece o que Freud chamou de compulsão à repetição: a estranha satisfação de morrer, tentar outra vez e, de algum modo, gozar nesse ciclo (Além do Princípio do Prazer, 1920).
De Kurosawa a Ghost of Yōtei
O fascínio começou antes dos games. Já nos anos 50 e 60, Kurosawa mostrava samurais complexos, cheios de dilemas éticos — Os Sete Samurais (1954) não é só um épico de batalha, é um retrato da honra em choque com a miséria e a sobrevivência. Na psicanálise, esse samurai encarna a tensão entre o ideal do ego — o desejo de ser perfeito, justo, honrado — e a dureza da realidade, que sempre exige alguma transgressão. Jogos contemporâneos herdaram esse drama. Em Ghost of Yōtei (assim como em Ghost of Tsushima), o herói começa preso ao código de honra do samurai; diante da invasão, percebe que seguir o código à risca significa perder tudo. Para salvar seu povo, precisa trair o ideal e virar fantasma — um ninja. É uma encenação clara do conflito entre o superego rígido, que exige pureza, e a necessidade de flexibilizar para sobreviver. Ninguém segue um ideal absoluto sem se quebrar.
O ninja é a sombra
Se o samurai é a lei, o ninja é a sombra: o disfarce, o silêncio, a astúcia, aquele que burla as regras. Na linguagem da psicanálise, ele representa o id mascarado — o que deseja transgredir e não se mostra à luz do dia. Jogos como Sekiro levam isso ao radical: você morre, recomeça, insiste. Cada morte é uma castração, uma lembrança do limite; cada renascimento, uma promessa de superação. É por isso que a experiência é tão intensa — ela nos coloca diante do próprio inconsciente, repetindo, falhando, mas sempre desejando ir além.
Por que isso nos captura
No fundo, samurai e ninja deixaram de ser símbolos locais para virar arquétipos globais, porque todos entendemos a tensão entre a ordem e o desejo, entre a disciplina e a transgressão. O samurai é a lei, a disciplina, o superego. O ninja é a sombra, o id. E os games nos deixam viver os dois lados sem culpa e sem punição real — apenas na fantasia. Talvez seja essa a pergunta que fica: você se sente mais samurai ou mais ninja?
Pronto para vestir a catana? Os jogos que citei estão aqui: Ghost of Yōtei, Ghost of Tsushima Director's Cut e Assassin's Creed Shadows.
Ghost of Yōtei → Ghost of Tsushima → AC Shadows →Para colecionar: console PS5 Ghost of Yōtei, controle DualSense Ghost of Yōtei e a action figure do Jin Sakai.
Links de afiliado. Como Associado da Amazon, este site ganha com compras qualificadas — sem custo a mais para você.Referências
Freud, S. Além do Princípio do Prazer (1920) — a compulsão à repetição. · Os conceitos de superego, ideal do ego e id na teoria freudiana. · Kurosawa, A. Os Sete Samurais (1954).