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Biblioteca cheia, nada pra jogar: o desejo de ter e o tédio de possuir

Biblioteca cheia, nada pra jogar: o desejo de ter e o tédio de possuir

Trezentos jogos na biblioteca. Metade nem instalada. Você abre a lista, rola pra cima, rola pra baixo, e fecha com aquela frase impossível na cabeça: "não tenho nada pra jogar". Como assim nada? Tem centenas ali, muitos que você implorou por desconto na promoção. E, no entanto, nenhum te chama. Esse paradoxo, ter tudo e não querer nada, não é falha de gosto nem excesso de mimo. É uma das lições mais afiadas da psicanálise sobre como o desejo funciona.

O desejo é falta, não posse

A psicanálise, especialmente com Lacan, parte de uma ideia contraintuitiva: o desejo não busca satisfação, ele busca continuar desejando. Desejar é, por definição, querer o que a gente não tem. O motor do desejo é a falta. Por isso o jogo na vitrine, ainda não comprado, brilha tanto: ele é puro potencial, promessa, aquilo-que-vai-me-completar. No instante em que você clica "comprar" e ele entra na sua biblioteca, algo se apaga. Ele deixou de ser falta e virou posse, e a posse não desperta desejo, ela o encerra.

Por que a promoção é tão gostosa (e o jogo comprado, não)

Isso explica a euforia estranha das grandes promoções. O prazer ali quase nunca é jogar, é adquirir. Encher o carrinho, garantir, acumular. Cada compra promete uma felicidade futura ("quando eu jogar isso..."), e é essa promessa, não o jogo, que a gente está comprando. Só que a felicidade prometida mora sempre no futuro, no jogo-que-eu-ainda-vou-jogar. Assim que ele vira presente possuído, a promessa migra para o próximo da lista de desejos. Você não colecionou jogos; colecionou promessas de prazer, e promessa cumprida deixa de ser desejável.

A biblioteca vira um cemitério de desejos

Aí está o motivo do "nada pra jogar" diante de trezentos títulos. Cada jogo daquela lista já foi desejado e já foi possuído, ou seja, já perdeu o brilho que tinha enquanto era falta. Olhar a biblioteca é olhar um arquivo de desejos que já foram satisfeitos e, por isso mesmo, se esvaziaram. O que você procura, rolando a lista, não é um jogo: é a sensação de querer, aquele frisson do que ainda não é seu. E essa sensação, por estrutura, não está lá dentro, está sempre do lado de fora, no próximo lançamento.

Escolher é abrir mão, e isso trava

Tem ainda um segundo aperto: a paralisia da abundância. Com tantas opções, escolher um jogo significa renunciar a todos os outros naquele momento. E renúncia dá um desconforto surdo, a fantasia de que talvez outro fosse melhor. Diante do infinito da biblioteca, muita gente prefere não escolher nenhum a arcar com o pequeno luto de cada escolha. Paradoxalmente, quanto mais opções, mais difícil se entregar a uma. O excesso não liberta: ele congela.

Jogar é aceitar que o suficiente basta

A saída não é ter menos jogos (embora ajude), é mudar o que a gente procura. Enquanto você caçar na biblioteca a emoção de desejar, vai sempre sair de mãos vazias, porque essa emoção não vive na posse. Mas se você aceitar escolher um, qualquer um razoável, e se entregar a ele apesar dos outros, descobre que o prazer de jogar é de outra natureza que o de adquirir, mais quieto, menos eufórico, e infinitamente mais satisfatório. Talvez a coisa mais radical que dá pra fazer com uma biblioteca gigante seja fechá-la, abrir um único jogo, e ficar.

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Referências

Lacan, J., o desejo como falta e o desejo do Outro. · Freud, S., a insatisfação estrutural da pulsão (Além do Princípio do Prazer, 1920).

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