Análises

BioShock: "Would you kindly" e a ilusão do livre-arbítrio

Tem uma frase em BioShock que, quando cai a ficha, faz você largar o controle e olhar para o vazio: "Would you kindly", "você faria a gentileza de". Durante o jogo inteiro, essa expressão aparentemente educada precede cada ordem que você recebe. E lá pela metade, o jogo revela: toda vez que você "escolheu" agir, você estava, na verdade, obedecendo. Não o Jack, o personagem. Você. BioShock usa o videogame para fazer a pergunta que a psicanálise faz há mais de um século: será que você escolhe, ou apenas cumpre um comando que nem sabia que existia?

⚠️ Aviso: spoilers pesados de BioShock, incluindo a reviravolta central. Se ainda vai jogar, mergulhe primeiro.

Rapture: a utopia do indivíduo soberano

A cidade submarina de Rapture foi construída por Andrew Ryan como o sonho do homem que não deve nada a ninguém, o indivíduo autossuficiente, dono absoluto de si, livre de Deus, do Estado e da moral coletiva. É a fantasia narcísica levada à arquitetura: um mundo inteiro erguido para provar que "eu basto a mim mesmo". E, como toda fantasia de onipotência, ela colapsa. Rapture apodrece em guerra, vício e loucura, porque o indivíduo absolutamente soberano é uma ilusão. Ninguém é a origem completa de si mesmo. Todos nós somos atravessados pelo desejo e pela fala dos outros muito antes de decidir qualquer coisa.

O comando escondido

E aqui está o golpe de mestre. Enquanto você acha que está tomando decisões heroicas, cada uma delas foi disparada por "would you kindly". O jogo materializa uma ideia central de Lacan: o inconsciente é o discurso do Outro. Ou seja, aquilo que a gente vive como "minha vontade" é, em boa parte, comandado por significantes que vieram de fora, palavras, ordens, desejos alheios que nos habitam sem que a gente perceba. Você jogou horas convencido de que agia por conta própria. O twist não expõe a servidão do Jack; expõe a sua. E é por isso que dói: por um instante, você sente na pele o que significa ser falado por algo que não controla.

"A man chooses, a slave obeys"

No confronto com Ryan, a frase vira lâmina: "um homem escolhe, um escravo obedece". E então Ryan te entrega o taco e ordena, usando o gatilho, que você o mate. Você mata. Não há escolha; há execução. E tem uma camada a mais: Ryan é o pai biológico do Jack. Então o que acontece ali é, de novo, um parricídio, mas comandado, encenado para provar uma tese sobre livre-arbítrio. É o mesmo nó edípico que a gente destrinchou na análise de God of War: matar o pai. Só que aqui o filho é um instrumento, e o pai escolhe a própria morte para cravar seu ponto. A tragédia não é ser forçado a matar; é descobrir que talvez nunca tenha havido um "você" livre para se recusar, um Édipo sem sujeito. É o instante exato em que BioShock encena o que Lacan chama de sujeito barrado ($): o eu que se descobre dividido, atravessado e falado por um desejo que veio de fora.

ADAM: o corpo refeito pelo desejo

E há o combustível de tudo: o ADAM, a substância que dá superpoderes e destrói quem a usa. Os splicers, antes cidadãos, viraram viciados desfigurados, dispostos a matar por mais uma dose. É o retrato mais cru da pulsão que não conhece limite: o gozo que promete potência e entrega ruína. Rapture prometia liberdade absoluta e produziu a escravidão mais básica, a do corpo refém do próprio desejo. A cidade da autonomia total virou um formigueiro de gente comandada pela falta.

A escolha que sobra

Ironia final: logo depois de mostrar que você nunca escolheu nada, o jogo te oferece uma escolha real, salvar ou "colher" as Little Sisters, as meninas transformadas em fábricas de ADAM. É pequena, é moral, e talvez seja justamente por isso que importa. Se a grande liberdade é uma ilusão, o que resta de humano é o gesto ético mínimo: poupar quem você poderia explorar. Não é a onipotência de Ryan. É algo mais modesto e mais verdadeiro, a responsabilidade por como você trata o outro, mesmo dentro de um mundo que te programou.

Por que o twist ainda arrepia

BioShock envelheceu tão bem porque seu golpe não é sobre o Jack, é sobre você, com o controle na mão, acreditando que decide. Ele usa a única linguagem em que isso poderia ser sentido de verdade, e não só explicado: a interatividade. Por um momento, o jogo te faz viver a descoberta mais desconfortável da psicanálise, a de que o eu não é senhor na própria casa. E depois te devolve a única liberdade que talvez seja real: a de escolher, agora que você sabe, o que fazer com isso.

Capa: BioShock

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Referências

Lacan, J., "o inconsciente é o discurso do Outro", o sujeito determinado pelo significante e o sujeito barrado ($). · Freud, S., o complexo de Édipo (o parricídio).

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