Análises

Kratos matou os próprios deuses, e o próprio pai

Tem um detalhe em God of War que passa batido no meio de tanto sangue: a saga grega do Kratos não é só inspirada na mitologia, ela é uma tragédia grega no sentido técnico do termo. E o Fantasma de Esparta, esse tanque de músculo e ódio, é um caso de manual da psicanálise. Ele mata os deuses, um por um. E o último que ele mata é o pai. Segura essa, porque a coisa é mais funda do que parece.

Hybris e nêmesis: a máquina da tragédia

A tragédia grega tem uma engrenagem fixa. O herói comete hybris, a arrogância de quem desafia a ordem divina, e a nêmesis, a punição, vem inevitável. Édipo tenta fugir do oráculo e, ao fugir, realiza exatamente a profecia. É a estrutura de God of War inteira: cada vez que Kratos tenta se livrar da dor destruindo quem a causou, ele produz mais dor. Ele quer paz e semeia ruína. Aristóteles lembraria que a tragédia serve para operar uma catarse, mas no espectador, não no herói: a descarga que reorganiza é a que nós sentimos ao vê-lo. Kratos nunca elabora nada; ele só descarrega. E descarregar não cura.

Édipo com um machado

Freud batizou de complexo de Édipo justamente a partir da peça de Sófocles: o desejo infantil, recalcado, ligado a matar o pai e ocupar o lugar dele. Na maioria das pessoas isso fica no plano do inconsciente, elaborado ao longo da vida. Kratos não elabora: ele executa. Descobre que Zeus é seu pai e crava a lâmina. Não é metáfora, não é sonho, é o parricídio encenado literalmente na tela, sem filtro simbólico. God of War pega o conflito mais recalcado da psique humana e o transforma em chefe de fase. Por isso a saga incomoda tanto: ela toca, sem disfarce, no que a gente enterrou.

A fúria narcísica

Mas por que tanta raiva? Aqui entra o narcisismo, e não no sentido de vaidade. Freud descreveu o investimento no próprio eu e a ferida ao amor-próprio (Sobre o Narcisismo: uma introdução, 1914); e foi Heinz Kohut quem nomeou o que a ferida produz: a raiva narcísica, aquela fúria destrutiva em que um eu machucado converte a dor que não consegue suportar (Thoughts on Narcissism and Narcissistic Rage, 1972). Kratos é uma ferida ambulante: enganado, humilhado, culpado pela morte da própria família. Um eu tão machucado não consegue sentir a dor como luto, ele a converte em fúria. A raiva narcísica é isso: transformar o insuportável "eu me odeio pelo que fiz" no muito mais tolerável "eu vou destruir vocês". É por isso que Kratos não chora a família; ele incendeia o Olimpo. A destruição de fora é uma defesa contra a implosão de dentro.

As cinzas que não saem da pele

E tem o detalhe mais psicanalítico de todos: a pele branca de Kratos são as cinzas da esposa e da filha mortas, grudadas nele para sempre por maldição. Pensa no que isso encena. A culpa que ele não consegue elaborar não some, ela fica impregnada no corpo, visível, permanente. É o recalcado que não desce: vira sintoma na própria carne. Kratos carrega literalmente a prova do que fez, e nenhuma vingança lava isso. Quanto mais ele mata para se livrar da culpa, mais branca fica a pele. A vingança é a tentativa fracassada de tirar as cinzas esfregando sangue.

A saída era virar pai

E aqui está o giro genial da franquia. Quando Kratos ressurge na era nórdica, mais velho e cansado, ele não está mais caçando deuses, está criando um filho. Pela primeira vez, em vez de matar o pai, ele é o pai. E a tarefa dele deixa de ser destruir e passa a ser não repetir: não transmitir ao Atreus a mesma fúria que herdou. É a possibilidade que a tragédia grega nunca dava a Édipo, a chance de interromper o ciclo. Kratos passa a saga inteira aprendendo a coisa mais difícil para um narcisista ferido: conter a raiva para que o filho não vire outro Kratos. A vingança acabou. Começa o trabalho.

Capa: God of War

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Referências

Freud, S., o complexo de Édipo e Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914). · Kohut, H. Thoughts on Narcissism and Narcissistic Rage (1972), a raiva narcísica. · A estrutura da tragédia grega (hybris, nêmesis, catarse), a partir de Aristóteles, Poética.

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