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Colecionismo ou transtorno? Quando juntar jogos vira problema

Colecionismo ou transtorno? Quando juntar jogos vira problema

A prateleira com os cartuchos alinhados, as caixas seladas, a edição de colecionador que você caçou por meses, colecionar games é um dos prazeres mais legítimos do hobby. Mas de vez em quando aparece a piada nervosa: "isso já é doença?". Como psiquiatra, acho a pergunta boa demais para tratar só na brincadeira. Existe, sim, uma linha entre a coleção que enriquece a vida e o acúmulo que a sufoca, e vale conhecer onde ela fica, sem alarmismo e sem estigma.

Aviso: este texto é informativo e não substitui avaliação profissional. Diagnóstico é feito por um profissional de saúde mental, caso a caso.

Colecionar é saudável, e humano

Comecemos pelo óbvio que às vezes se esquece: colecionar é uma atividade saudável e antiga. Selecionar, organizar, cuidar, completar séries, contar a história de cada peça, tudo isso dá prazer, sentido, identidade e até laço social (a comunidade de colecionadores). Uma coleção pode ser uma extensão bonita de quem a pessoa é. Na imensa maioria dos casos, não há nada de patológico nisso. O colecionador típico tem controle: escolhe, prioriza, sabe parar, e a coleção convive bem com o resto da vida.

Quando encosta no TOC

O Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) é outra coisa. Ele se define por obsessões, pensamentos intrusivos, indesejados, que geram ansiedade, e compulsões, atos repetitivos feitos para aliviar essa ansiedade. A diferença-chave em relação ao colecionismo é o motor: o colecionador junta por prazer e valor; na dinâmica obsessivo-compulsiva, a pessoa organiza, verifica ou adquire para aliviar um desconforto, não para desfrutar. Se ter tudo perfeitamente alinhado, lacrado, em duplicata, deixa de ser gosto e vira uma exigência aflitiva, "preciso, senão fico mal", o eixo mudou de lugar. Aí não é a coleção que dá prazer; é a ansiedade que manda.

E quando é transtorno de acumulação

Há ainda um quadro distinto, e importante: o Transtorno de Acumulação (hoarding). Ele foi reconhecido como diagnóstico independente no DSM-5, em 2013, antes era visto como parte do TOC ou de traços de personalidade. Caracteriza-se pela dificuldade persistente de descartar posses, independentemente do valor real, por uma necessidade percebida de guardar e por sofrimento intenso ao se desfazer delas. O resultado é o acúmulo que congestiona os espaços a ponto de comprometer o uso deles, a casa deixa de funcionar como casa. Repare a diferença: o colecionador seleciona e valoriza; na acumulação, a pessoa não consegue descartar e as coisas se amontoam sem curadoria, muitas vezes com vergonha e isolamento.

A linha que separa hobby de sofrimento

Como saber de que lado a coisa está? A psiquiatria usa dois critérios que valem para quase tudo: sofrimento e prejuízo funcional. Pergunte-se, com honestidade: a coleção te dá mais alegria ou mais angústia? Você está no controle dela, ou ela no controle de você? Ela está comprometendo suas finanças, seu espaço, seus relacionamentos, seu tempo? Comprar traz alívio de curta duração seguido de culpa? Você esconde o quanto gasta ou o quanto tem? Se as respostas apontam para sofrimento e prejuízo, e não para prazer e sentido, vale olhar com mais cuidado. Não para se rotular, mas para se cuidar.

Sem estigma, com cuidado

Duas coisas importam aqui, e puxam para lados opostos do exagero. A primeira: ter uma coleção grande, ou mesmo "exagerada" aos olhos dos outros, não é doença nenhuma, a maioria dos colecionadores apaixonados é perfeitamente saudável, e patologizar hobby é injusto e cruel. A segunda: quando de fato há sofrimento, isolamento ou prejuízo real, isso é uma questão de saúde como qualquer outra, tratável, e não um defeito de caráter ou "falta de força de vontade". Se você se reconheceu no lado difícil deste texto, ou reconheceu alguém que ama, procurar um profissional de saúde mental é um gesto de cuidado, não de fraqueza. A prateleira pode voltar a ser fonte de orgulho, e não de peso.

Para ir além da coleção e entender quando a busca por ordem e controle deixa de ser gosto e vira ansiedade e sofrimento, vale este artigo: Quando manter tudo em ordem vira sofrimento: perfeccionismo, ansiedade e o cansaço de nunca chegar lá.

Este é um tema sensível. Se ele mexeu com você de forma pessoal, considere conversar com um profissional de saúde mental de sua confiança.

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Referências

Associação Americana de Psiquiatria, DSM-5 (2013): o Transtorno de Acumulação como diagnóstico independente do TOC. · Critérios de sofrimento e prejuízo funcional na definição de transtorno mental.

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