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A culpa de jogar sendo adulto: será que estou perdendo tempo?

A culpa de jogar sendo adulto: será que estou perdendo tempo?

Você finalmente senta pra jogar depois de um dia longo. Meia hora depois, no lugar do relaxamento, aparece uma voz baixinha: "você tinha tanta coisa pra fazer". A louça, o e-mail, o projeto parado, aquele "deveria estar sendo produtivo". A diversão azeda. Se isso te soa familiar, você não é preguiçoso nem imaturo, você está ouvindo uma voz que a vida adulta instalou em quase todos nós. E vale entender de quem é essa voz.

O superego virou um gerente de produtividade

Na teoria freudiana, temos uma instância interna que julga e cobra: o superego. Ele se forma a partir das exigências que recebemos ao crescer e passa a funcionar sozinho, mesmo sem ninguém olhando. O problema é que, na cultura em que vivemos, esse juiz interno foi treinado com um valor específico: o de que o tempo só vale se for produtivo. Trabalho, rendimento, "aproveitar" cada hora. Sob essa régua, o lazer sem retorno vira suspeito, e o jogo, que não gera nada palpável, vira "tempo perdido". A culpa que você sente não é sobre o jogo. É o superego produtivista cobrando pedágio de qualquer prazer que não pareça útil.

Por que doía menos quando a gente era criança

Repara que, criança, você jogava sem culpa nenhuma. Brincar era o seu trabalho, ninguém esperava "produtividade" de você. Ao crescer, herdamos uma equação silenciosa: adulto de verdade produz; brincar é coisa de quem não tem responsabilidade. Essa equação é cultural, não é uma verdade. Mas ela cola tão fundo que a gente passa a se policiar sozinho, transformando um descanso legítimo numa pequena falta moral. A culpa adulta ao jogar é, no fundo, a culpa de estar sendo criança num corpo de quem "deveria" estar sendo útil.

Winnicott: brincar não é o oposto de sério

Aqui entra uma das ideias mais libertadoras da psicanálise. Para Donald Winnicott, o brincar não é passatempo nem regressão: é uma função vital da mente, o espaço onde a criatividade, o descanso e o próprio senso de estar vivo acontecem (O Brincar e a Realidade, 1971). Winnicott chegava a dizer que é no brincar que a pessoa é mais plenamente ela mesma. Ou seja: reservar tempo para jogar não é fugir da vida adulta, é cuidar de uma parte da mente que o excesso de produtividade sufoca. O jogo não te rouba tempo; ele te devolve a um lugar de onde a gente sai mais inteiro.

A culpa como sintoma de um problema maior

Vale prestar atenção num ponto: se toda forma de descanso te gera culpa, não só o jogo, mas ler à toa, deitar sem fazer nada, ver série, talvez o assunto não seja o videogame, e sim uma relação exigente demais consigo mesmo. Um superego que não deixa descansar cobra caro: cansaço crônico, irritação, aquela sensação de nunca ser suficiente. Reconhecer que você tem direito ao ócio é, muitas vezes, um trabalho psíquico maior do que parece, e um dos mais importantes.

Jogar sem pedir desculpas

Então, da próxima vez que a voz aparecer no meio da partida, você pode respondê-la com conhecimento de causa: descansar não é desperdício, brincar não é falha de caráter, e uma mente que só produz e nunca joga não é mais saudável, é mais seca. O adulto equilibrado não é o que abandonou o brincar; é o que aprendeu a se dar permissão para ele. Jogar, com prazer e sem culpa, pode ser uma das coisas mais adultas que você faz.

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Referências

Winnicott, D. W., O Brincar e a Realidade (1971): o brincar como experiência criativa e vital. · Freud, S., o superego (O Ego e o Id, 1923).

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