Elden Ring: quem decidiu que você quer ser Lorde Prístino?
Elden Ring (FromSoftware, 2022) começa com você morto, ou quase. Um Sem-Luz, expulso, sem graça. Então a graça volta, aquele fiapo dourado no chão apontando o caminho, e uma voz informa qual é o seu objetivo: restaurar o Anel Prístino e tornar-se Lorde Prístino. Repare que ninguém te perguntou nada. Você acorda dentro de uma missão que já estava escrita, com um título que já existia antes de você, e passa cem horas correndo atrás disso.
Um objetivo que chegou pronto
É fácil não estranhar, porque videogame sempre dá um objetivo. Mas Elden Ring insiste demais no ponto para ser acidente. A graça é literalmente um dedo dourado no chão indicando para onde ir. Os personagens repetem o roteiro. O título de Lorde Prístino é uma vaga, e há vários semideuses disputando a mesma vaga, cada um convencido de que aquilo é o que ele quer. O jogo inteiro é feito de gente perseguindo um lugar que a Ordem definiu como o lugar desejável.
O desejo do homem é o desejo do Outro
Lacan tem uma fórmula que funciona quase como resumo do jogo: o desejo do homem é o desejo do Outro. Ela aparece no Seminário 11, de 1964, e opera em mais de um sentido ao mesmo tempo. Primeiro, a gente deseja ser reconhecido, quer ocupar um lugar aos olhos do Outro. Segundo, e mais incômodo, a gente deseja aquilo que supõe que o Outro deseja. O Outro aqui não é o vizinho, é a instância que já estava lá quando você chegou: a língua, a lei, a família, a cultura. O que chamamos de “meus objetivos” costuma vir com uma etiqueta de origem que ninguém leu.
Elden Ring encena isso com clareza rara. Você não desejou o Anel Prístino, foi convocado por ele. A graça não é sua, é uma bênção concedida e retirada pela Ordem. Até o nome do seu papel, Sem-Luz, é uma definição por falta: você é definido pelo que a Ordem diz que te falta. O jogo entrega o desejo pronto e você o veste.
A Ordem Áurea como lei
A Ordem Áurea não é só a religião do cenário, é a lei que organiza o mundo, e organiza inclusive o que pode ser desejado dentro dele. Ela decide o que é vida e o que é aberração, o que é ordem e o que é maculado. Os Ômen nascem com chifres e por isso são trancados nos esgotos, não porque façam mal a alguém, mas porque não cabem na classificação. Isso é a lei operando no ponto mais brutal, não como regra de conduta, e sim como critério do que tem direito a existir.
Marika, Radagon e a lei partida
E aí vem o achado mais interessante do jogo. A figura que encarna a lei é Marika, e a revelação de que Marika e Radagon dividem o mesmo corpo racha essa figura ao meio. A instância que deveria ser a garantia de tudo é ela própria dividida, contraditória, em conflito consigo mesma. Foi Marika, afinal, quem quebrou o Anel Prístino. Quem sustenta a lei é quem a violou.
Isso não é detalhe de enredo, é o coração da coisa. A criança que cresce descobre, mais cedo ou mais tarde, que a autoridade que lhe deu as regras não é coerente: falha, se contradiz, quebra as próprias regras. A famosa lei do pai não é a lei de um pai perfeito, é uma função que alguém falho ocupa. Descobrir isso decepciona e liberta na mesma proporção, porque é a partir daí que a regra deixa de ser natureza e passa a ser algo discutível.
Os finais são posições diante da Ordem
Não é coincidência que os finais de Elden Ring sejam, na prática, posições diante da lei. Você pode restaurar a Ordem como ela era, remendando o mundo no formato antigo. Pode alterá-la em algum ponto, mantendo a estrutura e trocando o princípio. Ou pode entregá-la à Chama Frenética e queimar tudo, inclusive a possibilidade de qualquer ordem. Obedecer, reformar ou destruir. É um mapa razoavelmente honesto das saídas disponíveis para quem herdou um mundo que não escolheu.
A pergunta que sobra
O que Elden Ring faz de mais afiado não é te dar liberdade, é mostrar o quanto do seu desejo chegou pronto. E a pergunta que ele deixa vale fora do jogo, para carreira, para os planos que a gente jura que são nossos, para a vida que se está construindo com muito esforço: esse objetivo que você persegue há anos, você chegou nele, ou acordou já correndo atrás dele com uma graça dourada apontando o caminho? Nem sempre a resposta é confortável. Mas fazer a pergunta já é sair um pouco do automático, que é mais ou menos tudo o que dá para pedir.
Leia também
Death Stranding: um mundo sem o nome-do-pai Por que a gente ama o vilão? A psicanálise do lado sombrioReferências
Lacan, J. Seminário 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964): o desejo do homem é o desejo do Outro. · Freud, S. Totem e tabu (1913): a lei fundada sobre a figura do pai.
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