Análises

Gears of War: a musculatura é uma armadura contra a dor

À primeira vista, Gears of War é o auge do exagero másculo: homens do tamanho de armários, pescoço mais grosso que a coxa, uma serra elétrica acoplada ao fuzil, tudo cinza e sangue. É fácil rir e seguir em frente. Mas se você olhar por baixo daquela armadura absurda, encontra outra coisa, e é sobre isso que quase ninguém fala: Gears é, no fundo, um jogo sobre luto.

O corpo como fortaleza

Repara no design. Tudo em Gears é blindagem: a armadura COG monstruosa, os músculos hipertrofiados, a bravata constante, o grunhido no lugar da fala. É a masculinidade transformada em carapaça. E carapaça serve para uma coisa só, não deixar nada entrar. Psicologicamente, essa armadura toda protege contra o que os personagens não podem se dar ao luxo de sentir: medo, tristeza, fragilidade. Num mundo em guerra permanente, sentir é perigoso. Então eles endurecem o corpo para não amolecer por dentro.

A defesa maníaca

Melanie Klein descreveu um mecanismo que explica Gears como poucas coisas: a defesa maníaca. É quando, diante de uma perda insuportável, a pessoa não desce ao luto, ela faz o oposto: agita-se, triunfa, controla, ataca, mantém-se em ação frenética para não sentir a dor. Gears é isso jogável. A cada baixa, ninguém para para chorar; a resposta é mais violência, mais ataque, mais avanço. O barulho e a fúria existem justamente para tapar o silêncio onde a tristeza moraria. É a masculinidade que só sabe transformar dor em raiva, porque raiva parece força e tristeza parece fraqueza.

Dom e Maria: a rachadura na armadura

E aí o jogo faz algo corajoso: ele racha a própria armadura. Dom passa a saga inteira procurando Maria, a esposa desaparecida. Quando finalmente a encontra, ela está irreconhecível, destruída pela tortura, sem volta possível. E Dom, o soldadão durão, precisa fazer o gesto mais devastador de todos por amor. Naquele momento, toda a carapaça de Gears desmorona, e o que sobra é um homem quebrado de dor. É a cena que revela a verdade que o jogo escondia atrás dos músculos: por baixo de toda aquela força blindada, havia o tempo todo um coração enlutado que não tinha permissão de chorar.

A irmandade que só a guerra permite

Tem ainda a relação entre Marcus e Dom, e entre o esquadrão todo. É afeto verdadeiro, profundo, mas que só consegue se expressar na linguagem da guerra: cobrir o outro, morrer junto, a lealdade no campo de batalha. É o vínculo masculino que, culturalmente, muitos homens só se autorizam a sentir quando ele vem disfarçado de camaradagem de combate. Gears mostra, sem querer, uma tristeza social: que para muitos homens o único lugar onde o amor entre eles cabe é o front, onde ele pode ser chamado de "irmandade" em vez de amor.

Por que isso importa

Gears of War é divertido pra caramba, e não precisa deixar de ser. Mas ele também é, sem alarde, um retrato do custo de uma masculinidade que não pode sentir. A armadura protege, e aprisiona. Ela mantém o medo do lado de fora, mas tranca a dor do lado de dentro, sem saída. E quando a perda finalmente atravessa (e ela sempre atravessa, como em Dom), o estrago é ainda maior porque nunca houve espaço para elaborá-la. Por baixo de toda serra elétrica, tem um homem que precisava chorar e não sabia como.

Capa: Gears of War

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Referências

Klein, M., a defesa maníaca contra a posição depressiva e o luto. · Freud, S., o trabalho de luto e sua evitação.

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