Cultura Gamer

PlayStation vai acabar com o disco, e com a ilusão de que o jogo é seu

Em julho de 2026, a Sony anunciou: a partir de janeiro de 2028, os jogos novos de PlayStation não sairão mais em disco. Só digital. A empresa lembrou que quase 80% das vendas de PS4 e PS5 já são digitais, então, no papel, é só a logística seguindo o hábito das pessoas. Mas por baixo do comunicado corporativo tem uma mudança que mexe com algo bem mais fundo do que plástico: a nossa relação com o ter.

O objeto que você segurava na mão

Pensa no cartucho soprado, no CD arranhado que ainda rodava, na caixinha na estante. Aquilo era um objeto real, que você segurava, guardava, emprestava, colecionava. Winnicott chamava de objeto transicional aquele primeiro pertence da criança, o paninho, o ursinho, que serve de âncora, de ponte entre o mundo interno e o externo, algo que é meu e que me acalma justamente por existir de verdade, fora de mim. A mídia física do videogame sempre teve um pouco disso: um objeto que ancora a experiência, que dá corpo e permanência a algo que, no fundo, é pura informação. Ter o jogo na mão era ter uma prova material de que aquilo era seu.

Você nunca foi dono, só não tinha percebido

E aqui está a verdade desconfortável que o fim do disco só torna visível: no digital, você nunca comprou o jogo. Você comprou uma licença, o direito de acessar, sob condições que a empresa define e pode mudar. O jogo pode ser removido da loja, o servidor pode ser desligado, a conta pode ser suspensa, e aquilo pelo qual você pagou simplesmente evapora. Não é seu; é emprestado por tempo indeterminado. O disco tinha um defeito lindo do ponto de vista do consumidor: uma vez na sua mão, era seu, ponto. Ninguém apagava da sua estante à distância. O que a Sony está aposentando não é só o plástico, é a última forma de posse de verdade que restava no videogame.

O colecionador e o medo da falta

Não é à toa que existe uma legião de gente que junta jogos físicos com paixão (eu, inclusive, tenho lá minhas prateleiras). A coleção não é só nostalgia. Colecionar é uma forma de lidar com a falta: reunir objetos, enfileirá-los, possuí-los, é construir com as próprias mãos uma sensação de completude e controle num mundo que não dá nem uma coisa nem outra. A estante vira uma extensão do eu, cada caixa ali conta quem você é, o que viveu, o que ama. Há até um quê de fetiche no melhor sentido psicanalítico do termo: o objeto físico carrega um valor que vai muito além da sua função, porque ele tapa, simbolicamente, um buraco. Tirar o objeto do mundo é tirar do colecionador uma das maneiras que ele tinha de se sentir inteiro.

O que se perde quando o jogo vira fantasma

Sem o objeto, some também tudo o que ele permitia: emprestar para um amigo, revender, comprar usado, deixar de herança para um filho. Uma coleção física atravessa gerações; uma biblioteca digital morre com a conta. Some a permanência, a certeza de que aquilo continuará existindo mesmo que a empresa perca o interesse. E some uma relação com o tempo: o disco envelhecia com você, tinha a marca do uso, era um pedaço concreto da sua história. O acesso na nuvem não envelhece, não pertence, não fica. Ele só flui, sempre condicionado a um "enquanto durar".

A angústia de depender do Outro

No fundo, a passagem do ter para o acessar é uma passagem de poder. Quando o objeto era seu, você mandava nele. Agora, entre você e aquilo de que você gosta há sempre uma empresa, um Outro que guarda a chave, define as regras e pode, a qualquer momento, mudar o combinado. É uma posição psíquica desconfortável: a de nunca ter, de sempre depender da permissão de alguém para acessar o que ama. A gente troca a segurança de possuir pela conveniência de acessar, e nem sempre percebe o tamanho da troca. Menos fricção, sim. Mas também menos chão sob os pés.

Por que isso incomoda tanto

Quando você sente um aperto ao ler que o disco vai acabar, não é saudade de plástico. É a percepção de que estamos migrando de um mundo de posse para um mundo de acesso, em que quase nada é definitivamente nosso, nem os jogos, nem os filmes, nem as músicas. E ter algo que é seu de verdade, que ninguém pode apagar à distância, é uma âncora psíquica mais importante do que parece. O fim da mídia física é conveniente, é o caminho do hábito. Mas ele também fecha, silenciosamente, a porta da última prateleira onde o jogo era, sem asterisco, seu.

Capa: PlayStation 5 Pro

Vai encarar a era digital? Garanta o seu por aqui e ajude o canal a crescer. 🎮

Console PS5 Pro (Amazon) Minhas indicações (Mercado Livre) Links de afiliado (Amazon e Mercado Livre). Este site pode ganhar comissão em compras qualificadas, sem custo a mais para você.
🎥 Assista à análise completa
Cole aqui o embed do vídeo do YouTube.

Referências

Winnicott, D. W., o objeto transicional. · Lacan, J., o objeto no campo do Outro. · Anúncio da Sony (PlayStation.Blog, 1 jul. 2026): fim da produção de discos físicos em janeiro de 2028.

← Voltar para a home

Comentários

O que você achou desta análise? Concorda, discorda, tem outra leitura do jogo? Deixe seu comentário aqui embaixo, leio todos e adoro continuar a conversa sobre o texto. 👇