Por que não consigo mais me perder num jogo como quando era criança
Tem uma queixa que todo gamer adulto reconhece: "não me envolvo mais como antes". O jogo é bom, os gráficos são melhores do que qualquer coisa da sua infância, e mesmo assim falta aquilo, a entrega total, o esquecer do mundo, aquelas tardes em que você virava o boneco e as horas evaporavam. Muita gente acha que é o jogo que piorou, ou que "perdeu a graça". Quase sempre não é isso. É que a sua mente mudou de configuração. (E, importante: isso é diferente da simples saudade dos jogos antigos, aqui o assunto é a capacidade de imergir, não a nostalgia.)
A criança joga com a mente inteira
O que fazia aquela imersão da infância ser tão profunda não era o jogo, era o seu estado mental. A criança joga com atenção indivisível: não há contas pra pagar, prazo amanhã, aquele problema no trabalho rodando no fundo da cabeça. A mente dela está inteira ali. Esse é o solo da imersão: quando nada compete pela sua atenção, você consegue se dissolver na experiência. Os psicólogos chamam esse estado de fluxo (flow), a absorção total numa atividade. E o fluxo é frágil: basta um fio de preocupação puxando a manga para ele não acontecer.
O adulto joga com a mente dividida
Agora pensa na sua cabeça enquanto você joga hoje. Uma parte está no jogo; outra está monitorando o relógio, lembrando de responder alguém, calculando o cansaço de amanhã, às vezes só zumbindo com uma ansiedade difusa. Essa vigilância de fundo, necessária para dar conta da vida adulta, é justamente o que impede a entrega total. Você não consegue se perder no jogo porque uma parte de você nunca pode se dar ao luxo de sumir. A imersão não morreu; ela está sendo disputada por uma mente que aprendeu a nunca desligar por completo.
Winnicott: para brincar, é preciso se sentir seguro
Winnicott observou algo que explica isso com precisão: o brincar de verdade só acontece num estado de relaxamento confiante, quando a pessoa se sente segura o bastante para baixar a guarda. A criança, amparada, tem essa segurança de sobra. O adulto, atravessado por responsabilidades e preocupações, muitas vezes não, e sem baixar a guarda, não há entrega. Não é que o adulto "não sabe mais brincar"; é que ele raramente se permite o estado mental em que brincar floresce. A imersão pede um tipo de rendição que a vida adulta ensina a gente a temer.
Como reconquistar (um pouco) a entrega
A boa notícia é que a capacidade de imergir não some, ela precisa de condição. Reduzir a mente dividida ajuda mais que qualquer gráfico: jogar sem o celular por perto, num horário em que você não está de olho no relógio, com a sensação de que aquele tempo é seu e nada vai desabar se você sumir por uma hora. É criar, de propósito, a segurança que a infância dava de graça. Muita gente redescobre a imersão não trocando de jogo, mas trocando o estado em que chega até ele.
Não é o jogo, é o mundo que você carrega
Então, se bateu aquela sensação de que "não é mais como antes", talvez o consolo seja este: você não perdeu o gamer que era. Você só está tentando brincar com uma mente que agora carrega o mundo inteiro nas costas. Reconhecer isso muda a pergunta, de "por que os jogos pioraram?" para "como eu volto a me sentir seguro o bastante para me entregar?". E essa, no fundo, é uma pergunta que vale para muito mais coisa do que videogame.
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Winnicott, D. W., O Brincar e a Realidade (1971): o brincar exige um estado de relaxamento confiante. · O conceito de fluxo (flow) na psicologia.
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