Análises

A Plague Tale: a mãe morta e o filho marcado

No meio da peste negra, entre marés de ratos e a fogueira da Inquisição, A Plague Tale coloca na sua mão a coisa mais frágil que existe: a mão de uma criança segurando a de outra. Amicia leva o irmãozinho Hugo pelo fim do mundo. Mas o que torna o jogo psicanaliticamente arrebatador não é o horror externo, é a família de onde essas duas crianças vêm. Porque, antes dos ratos, o que adoeceu ali foi um laço: uma mãe, uma criança marcada, e uma fantasia que todo pai e toda mãe conhecem no fundo, mesmo sem admitir.

⚠️ Aviso: spoilers de A Plague Tale (Innocence e Requiem), incluindo o desfecho.

A mãe morta

Béatrice, a mãe, está viva, e, ainda assim, ausente. Alquimista, ela vive absorta numa única missão: curar a doença de Hugo. Passa os dias trancada no laboratório, e Amicia cresce ao lado de uma mãe presente e, ao mesmo tempo, completamente inalcançável. André Green deu nome a essa experiência: o complexo da mãe morta (La mère morte, 1980). Não se trata de uma mãe que morreu, trata-se de uma mãe fisicamente viva, mas psiquicamente morta aos olhos do filho, esvaziada de afeto por uma depressão ou uma obsessão que a consome por dentro. Para a criança, é como se a fonte de calor tivesse virado uma figura distante, átona, quase inanimada. Green descreve o resultado: uma "clínica do vazio", um sentimento crônico de não existir para o outro. É exatamente o chão emocional de Amicia, uma menina que precisa arrancar da mãe uma atenção que sempre está em outro lugar.

O filho marcado

E onde está toda a atenção da mãe? No outro filho. Hugo carrega a Mácula, uma condição no sangue que o liga aos ratos e à peste, um perigo que ele traz dentro de si desde que nasceu. Ele é, no sentido mais literal, a criança marcada: aquela sobre quem recai toda a angústia da família, o portador de algo que a todos amedronta. E há um detalhe devastador que o jogo revela: a Mácula é uma herança da linhagem materna. Ou seja, o "perigo" que habita Hugo veio do corpo da própria mãe, foi transmitido por ela. A doença do filho é, também, um pedaço obscuro da mãe que retornou nele.

A fantasia do filho "estragado"

E aqui A Plague Tale toca num ponto que a psicanálise conhece bem e que quase ninguém fala em voz alta. Toda gestação carrega, além do sonho do bebê ideal, aquele que Freud chamou de "sua majestade o bebê", uma sombra: o medo inconsciente de gerar um filho "estragado", danificado, monstruoso, mau. É uma fantasia antiga e universal, o avesso do desejo. Melanie Klein descreveu como a criança, muito cedo, povoa o interior do corpo da mãe de objetos bons e maus, e como o próprio bebê pode ser fantasiado, pela mãe, como portador de algo bom ou de algo destrutivo. Hugo é essa fantasia tornada carne: o filho que efetivamente carrega dentro de si "o mau", a coisa perigosa, a peste. E o mais pungente é que esse mau veio da mãe. A fantasia de "eu não quero gerar um filho estragado" encontra, em Béatrice, sua realização mais cruel, ela gerou, e transmitiu, justamente o que toda mãe teme transmitir.

É por isso que o amor de Béatrice por Hugo tem aquela intensidade aflita, quase asfixiante: ela ama e teme o próprio filho ao mesmo tempo, ela se dedica à cura como quem tenta reparar uma culpa que é sua. E é por isso que Amicia sobra, porque a mãe está inteiramente tomada por consertar o filho marcado, sem energia psíquica para a filha "saudável".

Amicia: a criança que teve que ser mãe

Diante de uma mãe morta e de um irmão marcado, Amicia faz o que muitas crianças fazem nesse lugar: assume o posto vago. Ela se torna a cuidadora, a protetora, a mãe funcional de Hugo. A clínica chama isso de parentalização, a criança empurrada cedo demais para responsabilidades emocionais de adulto. Winnicott descreveria o custo: para dar conta, Amicia constrói um falso self, uma casca de competência e controle, enquanto a menina real, com direito a ter medo e a brincar, fica soterrada. Mas o jogo mostra também a beleza desse gesto: a forma como Amicia acalma Hugo no escuro, dá nome ao que ele sente e sustenta a coragem dele é exatamente o que Winnicott chamou de holding, segurar emocionalmente o outro, dizer "estou aqui, você pode existir". Amicia se torna, para Hugo, a mãe suficientemente boa que Béatrice, presa à própria culpa, não conseguiu ser.

E há aí algo ainda mais fino, que Wilfred Bion nomeou: quando Amicia dá nome ao terror de Hugo no escuro, ela não está só o segurando, está fazendo função alfa. Bion descreveu a mente materna em rêverie como aquela que recebe o pavor bruto do filho, metaboliza esse terror e o devolve numa forma pensável, suportável. É essa função que Béatrice, esvaziada, não exerce, e que a irmã, criança ainda, assume no lugar dela: Amicia pensa por Hugo o que ele sozinho não conseguiria pensar.

Os ratos, a maré do real

E há os ratos, milhões, uma maré viva que devora tudo o que a luz não protege. Eles são a peste, mas psicanaliticamente são algo mais: a pulsão de morte em estado bruto, o incontrolável, aquilo que nenhuma ordem humana represa. Não à toa a maré responde a Hugo, ao que ele carrega. É o mau interno transbordando para o mundo, a angústia familiar virando catástrofe coletiva. Cada tocha que Amicia acende é um gesto mínimo de vida contra uma escuridão faminta.

O luto impossível: amar é, às vezes, soltar

É em Requiem que a ferida se abre por inteiro. A Mácula cresce, e com ela o desespero de Amicia por salvar Hugo, a qualquer custo. E aqui acontece o que já vimos em Death Stranding 2 e Hellblade: a recusa de aceitar uma perda pode ser mais destrutiva que a própria perda. Quanto mais Amicia se agarra à cura impossível, mais violência ela semeia. O amor, quando vira recusa absoluta de perder, deixa de proteger e começa a arrasar. O desfecho é uma das coisas mais dolorosas que os games ousaram: para que a peste pare e o mundo sobreviva, Hugo precisa partir, e é Amicia quem tem que deixar ir. Não há cura mágica. Há a lição mais difícil de todas: a forma mais alta de amor, às vezes, não é segurar com todas as forças, é ter a coragem de soltar. É o trabalho do luto em sua versão mais crua.

Por que fica na gente

A Plague Tale toca fundo mesmo em quem nunca viu um rato de perto porque fala do que há de mais íntimo numa família: a mãe que não consegue estar presente, o filho sobre quem recai o medo de todos, a criança que amadurece cedo demais para segurar a barra, e o dia em que a vida cobra a aceitação de uma perda que a gente faria tudo para evitar. Debaixo da ambientação medieval, é uma história sobre o que herdamos de nossos pais, inclusive o que eles temiam nos transmitir, e sobre a coragem de amar mesmo aquilo que veio marcado.

Capa: A Plague Tale

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Referências

Green, A. A Mãe Morta (La mère morte, 1980), em Narcisismo de Vida, Narcisismo de Morte. · Klein, M., as fantasias sobre o interior do corpo materno e o objeto bom/mau. · Winnicott, D. W., o holding e o falso self. · Bion, W. R., função alfa e rêverie. · Freud, S., o trabalho de luto e a pulsão de morte.

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